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O descaso de cada dia
 

A deterioração das condições de vida lançou a moda de falar de posicionamentos que revelam preocupação com o tecido social e seu esgarçamento, em resposta às tragédias cotidianas. Para enfrentar rajadas de balas perdidas contra valores morais e éticos, propagam-se palavras de ordem, “em defesa dos direitos de cidadania”, e promovem-se passeatas de protestos. Ninguém se lembra que o importante é manter a coerência entre o falado e o realizado, a permanência do valor nas ações e a determinação de integrar as instituições em atos concretos. O desejado fica no plano mágico, da utopia. A indignação é passageira na história dos descalabros. Inúmeros exemplos espelham esse procedimento. Basta recuperar um caso.

A contaminação do Rio Pomba, no Norte do Rio de Janeiro, pode ser revelador. Pelo constatado, faltou conduta ética aos diversos agentes envolvidos. A principal responsável foi a fábrica de papel que minimizou as medidas de segurança. Se a tecnologia adotada estava superada, se não tinha recursos para investir, são especulações que caberiam aos seus dirigentes apresentar, ainda que fossem injustificáveis. Faltou aos empresários à consciência do risco que a unidade fabril representava à sociedade. Não basta exibir a autorização de funcionamento como atestado de inocência. É necessário monitorar as atividades. Por que o descaso?

E qual foi o papel do órgão fiscalizador? Tinha mapeado o problema e notificado. Mas diante do pouco envolvimento dos seus dirigentes, além da falta de instrumentos técnicos e/ou legais, não houve prosseguimento nas ações que poderiam ter evitado a tragédia. O mínimo que poderia fazer era procurar apoio em outras instâncias, como o M P.
Omitiram-se os políticos. Os representantes dos poderes Legislativos e Executivos não poderiam ter evitado o problema ou enfrentá-lo de forma a tornar exemplar a ação? Qual foi a iniciativa que surgiu diante dos desdobramentos econômicos, sociais e ambientais?. Apostam no esquecimento do eleitorado. Igual a eles agiram as entidades patronais e trabalhadoras. Por que o silêncio?

As escolas, universidades e movimentos religiosos perderam a oportunidade de discutirem e proporem soluções. Dos bancos das salas de aula e dos templos não se ouviu uma palavra. A reação dos agentes sociais não aflorou. O debate sobre a poluição dos mananciais de abastecimento de água de milhares de famílias submergiu, deixando de ser potável. Por que o tema secou?

Percebe-se que prevaleceu a “difusão de responsabilidade”- todos acreditam que alguém cuidará do problema e nada é feito. Instâncias, de maneira desarticulada, compartimentada, procuram administrar uma fatia do problema. Com iniciativas emergenciais de cunho assistencialistas, se fortalece o desamparo social e o descrédito das instituições. Todos perdem a oportunidade de estabelecer uma aprendizagem social, capaz de ajustar os laços de cidadania. Por que o desperdício?

O caso do Rio Pomba é apenas mais um na longa lista de descasos de cada dia. Ele se insere na galeria onde estão o da cápsula de césio 157 que caiu nas mãos de catadores de lixo; no vazamento de petróleo; e o da distribuição e uso em maternidades de soro contaminado, causando a morte de dezenas de bebês. É possível impedir o descalabro. Cubatão, diante da alta incidência de crianças anencéfalas, indicou o caminho. Por que o exemplo não é seguido?
Porque a sociedade não exige os seus direitos. Não pressiona seus representantes. E perde as oportunidades de construir um país, onde não apenas os corruptos sejam punidos, sejam réus, mas também os corruptores que se fazem de vítimas. O cidadão deve ser implacável com as empresas e governos que não respeitam os preceitos éticos.

Consultor da FGV e diretor do Instituto de Psicologia da UFRJ, respectivamente.

Jornal do Brasil
pag. A-11
CAD:/COL:/OUTRAS OPINIÕES 
12/01/2005

 

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